A UNESCO lançou o programa Homem e a Biosfera (programa MAB) em 1971 para introduzir um novo conceito: a reserva da biosfera. São áreas onde os ecossistemas e a atividade humana podem coexistir em harmonia. Este modelo orienta hoje os esforços globais para equilibrar agricultura, cultura, biodiversidade e desenvolvimento sustentável.
A agricultura e o setor do vinho muitas vezes pressionam os ecossistemas. O MAB oferece um enquadramento que apoia a produção agrícola (vinhas, olivais, arrozais) e, ao mesmo tempo, protege o solo, a paisagem e os valores culturais. Este modelo é especialmente pertinente em regiões vitícolas, onde património e cuidado ambiental têm de caminhar juntos.
O que é o MAB e como apoia a agricultura sustentável
O programa MAB liga as ciências naturais e sociais ao desenvolvimento económico sustentável. Ao contrário dos parques nacionais, as reservas da biosfera permitem atividade humana. Agricultores, comunidades rurais e empresas podem operar nestas áreas desde que sigam práticas sustentáveis.
Cada reserva segue três objetivos principais:
- Conservar a biodiversidade e os ecossistemas
- Promover atividade económica e social sustentável
- Apoiar investigação, educação e partilha de conhecimento
Existem mais de 700 reservas da biosfera em todo o mundo, em 134 países, e 53 ficam em Espanha. Isto faz de Espanha o país com mais reservas da biosfera, facto que reforça o seu papel de líder na transição agroecológica.
O modelo MAB não certifica apenas a geografia. Incentiva uma forma de trabalhar que liga gestão da paisagem, preservação cultural e resiliência a longo prazo, valores essenciais para o setor do vinho.
Terra Alta: onde património vínico e sustentabilidade coexistem
Terra Alta, no sul da Catalunha, integra a região das Terres de l’Ebre, que a UNESCO designou como reserva da biosfera em 2013.
A região inclui zonas húmidas, arrozais e serras mediterrânicas. Preserva também um mosaico agroflorestal tradicional. Aqui, vinhas e outras culturas convivem com áreas naturais protegidas, incluindo sítios Natura 2000 e parques regionais.
Graças à certificação MAB, os produtos locais, como arroz, azeite e uvas para vinho, ganham valor acrescentado. Refletem um compromisso com sustentabilidade, património e biodiversidade. Isto é particularmente relevante numa região como a Terra Alta, onde a viticultura molda a economia e a paisagem.
Para lá da conservação, o reconhecimento MAB promove a inovação nas práticas agrícolas: regeneração do solo, corredores de biodiversidade, eficiência no uso da água e integração paisagística.
Celler La Botera: vinho sustentável enraizado numa paisagem viva
Celler La Botera fica em Batea, no coração da história vitícola da Terra Alta. A adega opera num dos poucos territórios da Europa onde uma zona vitícola tradicional se sobrepõe a uma reserva da biosfera designada pela UNESCO. Este cruzamento entre património cultural e responsabilidade ambiental dá à Celler La Botera uma posição simultaneamente enraizada e orientada para o futuro.
Trabalhar nas condições de uma reserva da biosfera é mais do que cumprir diretrizes de sustentabilidade. Implica cultivar com consciência dos limites locais e da interdependência ecológica. Escassez de água, estrutura do solo e corredores de biodiversidade não são preocupações teóricas. Elas condicionam a gestão das vinhas. Para a Celler La Botera, isto traduz-se numa filosofia de baixa intervenção, enraizada no saber tradicional e em práticas ajustadas ao lugar.
A adega foca-se em castas autóctones bem adaptadas aos solos pobres da região e a condições climáticas extremas. O trabalho na vinha privilegia a saúde do solo a longo prazo, a erosão mínima e a integração na paisagem. Socalcos de pedra local, margens de vegetação espontânea e métodos de retenção de águas pluviais fazem parte da lógica vitícola diária, não de estratégias de marketing.
Num contexto em que muitas alegações de sustentabilidade ficam vagas, a Celler La Botera oferece algo diferente: coerência rastreável e verificável entre produto, lugar e produção. Isto é especialmente relevante para profissionais do vinho que procuram não só qualidade, mas também autenticidade de origem com compromisso ambiental real.
A Celler La Botera não separa a produção de vinho do território. A sua identidade é inseparável da paisagem mediterrânica que habita e protege. Essa ligação entre terra, método e mensagem está a tornar-se um dos ativos mais valiosos no comércio internacional de vinho.
Para lá de Terra Alta: vinho noutras reservas da biosfera
A rede espanhola de reservas da biosfera inclui outras regiões vínicas de referência. Por exemplo:
- Sierra de las Nieves (Andaluzia): onde a viticultura de montanha está a reaparecer com práticas conscientes do clima.
- Reserva da Biosfera de La Rioja: abrange partes dos vales do Iregua, Leza e Jubera, com pequenos produtores a investir em biodiversidade e vinificação de baixa intervenção.
- Menorca: onde a viticultura coexiste com ecossistemas costeiros e interiores protegidos.
Embora nem todas sejam conhecidas por produções de grande volume, estas áreas mostram como o enquadramento MAB pode moldar a identidade vitícola. Promovem práticas como coberto vegetal, cultivo em sequeiro, recuperação de castas autóctones e proteção integrada das culturas. Todas são cruciais num clima em aquecimento.
Um posicionamento sustentável no comércio e na comunicação
Fazer parte de uma reserva da biosfera não influencia apenas como um vinho é produzido. Alinha o vinho com um segmento de mercado em crescimento que valoriza integridade, transparência e coerência ambiental.
Restaurantes e sommeliers estão a selecionar cartas que refletem mais do que estilo ou origem. Procuram vinhos que transportem uma narrativa de responsabilidade, produtos que expressem cuidado com a terra, continuidade cultural e autenticidade. Vinhos de regiões certificadas pelo MAB conseguem responder a estas expectativas de forma tangível e credível.
Também os consumidores olham para lá do rótulo. As suas preferências são cada vez mais moldadas por valores como sustentabilidade, aprovisionamento ético e rastreabilidade. Quando um vinho vem de uma paisagem protegida com valor ecológico reconhecido, conta uma história que ressoa.
Para importadores e distribuidores, responder a estas mudanças não é seguir uma tendência. É antecipar o que os segmentos mais envolvidos e influentes do mercado já esperam. Representar vinhos de reservas da biosfera é uma forma de oferecer coerência entre produto, lugar e princípio.
Os vinhateiros também sublinham o papel do enoturismo no reforço desta ligação. Quem visita e vivencia a paisagem e a filosofia por detrás destes vinhos torna-se, muitas vezes, o seu embaixador mais comprometido.
Cultura, paisagem e produto: uma história unificada
Em regiões como a Terra Alta, o selo de biosfera reforça a unidade entre identidade cultural e prática agrícola. Muros de pedra seca, socalcos e castas tradicionais não são apenas património, são elementos ativos de uma viticultura sustentável.
As adegas nestes territórios colaboram frequentemente com instituições locais em restauro de paisagens, monitorização de biodiversidade e recuperação de património, o que ancora ainda mais o produto no seu lugar de origem.
Essa ligação importa. Dá profundidade à narrativa do vinho e cria fidelização a longo prazo entre profissionais e consumidores finais.
Um modelo em crescimento para o setor do vinho
Combinar a produção de vinho com os princípios MAB exige equilíbrio. Não basta fazer um grande vinho. É preciso proteger a terra, aplicar o saber tradicional e seguir métodos sustentáveis.
Esta abordagem oferece benefícios claros. Os produtores podem construir histórias de marca sólidas e atrair consumidores conscientes. No entanto, envolve também desafios. Entre eles, custos de produção mais altos, necessidades de formação e planeamento de longo prazo.
Para profissionais do vinho (distribuidores, importadores, sommeliers), vinhos de áreas como a Terra Alta, ou de adegas como a Celler La Botera, são uma escolha inteligente. Combinam qualidade e autenticidade com um compromisso ambiental efetivo. Esta tendência continua a crescer nos mercados europeus, americanos e globais.
Mais regiões poderão seguir este caminho. O modelo MAB inspira territórios vínicos em todo o mundo. Conseguirão adaptar princípios semelhantes às realidades locais? E como poderá essa mudança afetar o comércio internacional?